XI CAMILLE CLAUDEL (1864-1943) MULHER , ARTISTA , ESCULTORA e ... MULHER ALÉM DE SEU TEMPO
Vida e obra
Vida e obra
Vou iniciar esse post com uma curiosidade . Na última década do século XIX foi lançada uma moda que tomou as ruas de Paris : O mais inusitado , o sucesso da popularidade da bicicleta provocou uma revolução social inesperada . Saindo da crisálida dos corpetes e saias complexas as mulheres tomaram as ruas vestidas com trajes masculinos , finalmente livres para mover-se e fisicamente ativas ! Evidente que houve resistência da população em geral , e os políticos detestaram a perda do controle sobre o guarda-roupa das mulheres e em outubro de 1892 , o Primeiro Ministro lançou o decreto “a vestimenta masculina pelas mulheres só será tolerada no propósito do esporte a bicicleta .” (Weber, Eugen "France au fin de siècle" Cambridge Havard University Press 1986 p 37.) A resistência chegou a canção popular Frou Frou celebrando o apelo sensual das saias , mas atraentes ou não, as mulheres modernas cantavam Frou Frou mas mantinham a nova conquista . Maria Pognon em 1886 presidindo o primeiro Congresso Feminista levantou um brinde a igualdade louvando a bicicleta . ( Ibid , p. 203) . Entretanto Camille Claudel , que considero uma mulher além de seu tempo , não demonstrou interesse por essa liberdade , permanecendo fiel as suas saias até o final . Interessada exclusivamente na sua arte vivia como reclusa no seu ateliê . Acredito que por pertencer a uma família burguesa católica, com determinados valores morais e tradição tiveram um peso grande na sua escolha . (opinião dessa historiadora , pelo desenrolar de fatos anteriores e posteriores)
Camille mudara-se para a Île Saint Louis , um aluguel mais acessível e local mais sossegado . Seus poucos visitantes frequentemente ficavam seduzido pela serenidade do local . Henry Asselin a visitou em 1904 e mais tarde relembrou sua primeira visita e “a alegria da escultora ao trabalhar longe dos olhos curiosos , como qualquer um ....“e provavelmente com mais convicção do as mulheres ciclistas , ela cantava Frou Frou .”
(Asselin, Henri “La vie doulourose de Camille Caudel” Radio Broadcast 1946, datilografado por Paul Claudel. Papiers Bibliotèque Nationale Archives : “Dossier Camille Claudel .”p. 441-42)
Outra visitante foi a jornalista Gabrielle Réval com a intenção de escrever um artigo sobre a mulher vista como a maior escultora da França . Ao adentrar o ateliê viu uma “forma confusa ,debruçada sobre um mármore , um cabelo castanho amarrado atrás com uma fita vermelha .” Camille pousou o cinzel e disse sorrindo “ Você me encontrou trabalhando , desculpe a poeira de minha blusa , eu esculpo meu mármore , detesto confiar o trabalho ao zelo de um assistente”
Réval admirou o esplendido mármore , o qual era a versão de Sakuntala renomeada Vertume et Pomone . Réval finalizou a entrevista com um tributo a escultora “Mademoiselle Claudel é a completa figura do gênio feminino” . (Réval, Gabrielle “Les Artistes femmes au Salon 1903” Femina 1 Mai 1903 p.520) .
O artigo , uma das maiores peças devotada a Camille Claudel na virada do século foi publicado na revista Femina em 1903. Todos os escritores dividiram a admiração irrestrita por uma mulher vista como um gênio , um grande entusiasmo por sua escultura e uma certa curiosidade sobre ela como pessoa , e uma preocupação pelas dificuldades que podiam adivinhar por detrás de sua maneira espartana de viver . A originalidade e vigor da escultura elogiada pelo novelista Henry de Braisne , a maior artista mulher do presente segundo a famosa crítica Camille Mauclair , o artigo de 46 páginas , publicado em 1898 , de Mathias Morhardt detalhando fatos da vida e do trabalho de Camille , com a intenção de aguçar a curiosidade do público em geral e a levar colecionadores à sua porta , indica que inquestionavelmente Camille ganhava reconhecimento como uma escultora importante . Entretanto em 1899 seu círculo de compradores não fora além do pequeno grupo de leais apoiadores que encontrara trabalhando com Rodin: o próprio Morhardt , o banqueiro Joany Pleytel , o industrial Maurice Fenaille , o pintor Fritz Thaulouw e o servidor público Henri Fontaine . O conde e a condessa de Maigret ao comissionar um busto e logo após o Perseu .
Ao lado de obras como L`Age mûr e Vertume et Pomone ( Sakuntala) as recentes obras expostas no Salon não eram interessantes como as anteriores . Eram pequenas peças charmosas descrevendo mulheres melancólicas junto a lareira . Faltam-lhes a chocante originalidade e simbolismo de suas outras esculturas , pequena apenas uma cena de gênero , mais peças decorativas que esculturas !
Camille Claudel Profonde pensée
mármore 188
Camille Claudel Rêve au coin du feu
ou Intimité gesso 1903
Camille Claudel Profonde pensée bronze 1889
As duas chaminés pertencem a uma série de estudos sobre a natureza parece que obteve certo sucesso comercial , explicando sem dúvida as versões tão próximas . É raro encontrar na estatuária tais cenas que os escultores muitas vezes realizavam para edição de objetos em porcelana ou faiança . Se a miniaturização das cenas evocam as "Causeuses" a realização bastante anedótica da Intimité exprime as modificações intervenientes no estilo da artista depois de 1898 e explicam a originalidade de um grupo que conhece a vantagem da pintura sobre a escultura . Se a primeira Chaminé com o personagem de joelhos possuía algum valor alegórico nos obriga a constatar que L`Intimité é essencialmente ilustrativa , que se confirma no realismo de detalhes evocando inúmeras cenas de pintura de gênero pintados por pintores dedicados a temática próxima e contemporâneos do grupo de Camille Claudel O mármore do Rêve a coin au feu apresentado pela primeira vez na Exposição 1900 , depois cinquenta exemplares do grupo foram fundidos em bronze por Eugéne Blot em 1905 . O grupo em mármore pertence a coleção particular da Condessa Maigret. A tradição familiar dos proprietários querem que a obra represente a mãe de Camille , a testa apoiada sobre lintel da lareira.
Camille Claudel La petite Sirène ou
la joueuse de flûte 1900-1905
Eugene Blot, 1905
Camille Claudel fez La Sirène ou la Joueuse de flûte por volta de 1904-1905. O fundador Eugène Blot adquiriu o gesso para produzir seis cópias de bronze. É um desses exemplos que podem ser que pode ser admirados no museu Camille Claudel.
Uma jovem de grande sensualidade, as costas arqueadas, a importância dos quadris acentuadas pelas pernas unidas, está sentada numa pedra. Sua mão direita toca uma flauta. Com a cabeça erguida, a mulher aproxima a boca do instrumento, mas não o toca. A respiração parece escapar de seus lábios, deixando imaginar uma música assombrosa. A leveza das cortinas, no estilo Art Nouveau, os dedos finamente modelados, acompanham o movimento dos braços, num vôo musical.
A escultora mencionou esta obra em várias cartas endereçadas á Eugène Blot. Na primeira carta, ela se oferece para lhe vender "um pequeno fauno". Então, em outra carta, ela compartilhou com ele uma ideia para uma versão incorporando ônix: "Você pode, se quiser, fazer uma de suas sereias com uma pedra de ônix verde (que lembra o mar); a flauta de metal brilhante". Esta versão foi, sem dúvida, considerada por Eugène Blot, mas nunca foi realizada.
Do fauno ou da sereia, criaturas mitológicas, Camille Claudel não reteve os aspectos monstruosos, mas a estreita ligação de cada um com a música e a sensualidade. A escultora não insistiu no aspecto perigosamente sedutor do flautista capaz de encantar o visitante? Existem duas versões a primeira tradicional ao mito da Sereia ; a segunda coloca a obra na série de estudos da natureza como uma simples flautista .
Segundo Blot era a peça preferida de Camille , pela alegria irresistível e liberdade que exalava da jovem entretida com sua música.
Camille Caudel Persée et Gorgone
mármore 1898-1905
Persée et la Gorgone realizada para a Condessa de Maigret , foi apresentada em gesso primeiro no Salon do Champs de Mars em 1899 e em mármore em 1902 . Esta grande escultura representa o herói grego Persée que matou a Medusa usando seu escudo para refletir sua figura como um espelho e cortando sua cabeça em seguida . Camille representa Persée de pé sobre o cadáver da Medusa brandindo sua cabeça . Infelizmente o escudo quebrou-se. O interesse pela peça encontra-se além , ao relembrar os primeiros trabalhos de Camille adolescente , David e Golias , em terra-cota e ainda em forma pobre que encantou Mohardt e aponta similaridades com o novo Persée . A Medusa, repõe Davi e Persée repõe Golias . Por outro lado , um desinquietante toque acrescentada a cabeça cortada da Medusa transforma a obra de Camille num pesadelo pessoal . O cabelo da medusa representado por cobras se torcendo da lenda , emoldura uma face deformada envelhecida , desgostosa e louca , esta face lembra a de Camille . Caravaggio antes dela , representou a si mesmo como a cabeça da louca Medusa , mas a decisão de Camille nesta época de sua vida trai uma pungente visão da tragédia que , experimentaria , tanto quanto o seu presente declínio físico ! Um retrato tirado quando trabalhava na obra , mostra o estrago que os aborrecimentos e dificuldades pecuniárias e privações fizeram ao seu belo rosto . Camille utiliza um vocabulário estilístico de forma mais tradicional , afastando-se do realismo expressivo, uma obra entretanto na qual não faltam originalidade , um grupo um pouco desengajado da forma clássica , mas de um concepção original . É uma obra completa sob todos os pontos de vista tão tradicional. Qual o significado exato deste investimento pessoal numa obra digamos tão tradicional? Tratar-se-ia de uma evocação de uma separação definitiva do mestre , no momento da elaboração do grupo?
a obra se distancia da produção contemporânea . Camille nessa obra obteve uma precisa evolução na apreensão da matéria que pode ser compreendida como uma regressão , uma banalização . Com essa obra a artista encontra , linhas de ritmo totalmente novo , que marca uma mudança importante na sua carreira rompendo , seja com o naturalismo expressivo dos estudos da natureza como das Causeuses , ou com o dramatismo alegórico de obras como L`age mûr a artista se distancia da arte de Rodin .
Detalhe das cabeças de Persée e Gorgone mostrando a possível semelhança nas feições de Gogorne com as de Camile Claudel
Retrato de Camille Claudel ao lado da obra
A primeira impressão de prematuro envelhecimento se deve a diminuição da espontaneidade e do encanto da mulher valente . que conservou seu senso de humor e sua alegria no meio de inúmeras dificuldades . A mesma impressão é observada na muitas cartas de Camille enviadas ao amigo Eugène Blot no inicio de 1900 . Os problemas financeiros são diários na ocasião , sem esperança de alívio no futuro de imediatas despesas de simples sobrevivência, como pagar o aluguel ou comprar comida , a pressionavam tanto quanto como pagar os assistentes ou modelos , ocasionalmente ainda alugados . Blot como marchand de sua arte , era uma das poucas fontes possíveis de dinheiro para Camille . Ela nunca pedia , mas tornava sempre seus pedidos em matéria bem humorada : “ Gostaria de saber se por acidente o senhor esqueceu de me mandar os últimos cinquenta francos esquecidos na nossa pequena conta " ou “ me mande cem francos de futuras negociações , senão desparecerei num cataclisma . Margotini pede pelo pagamento da conta que me ameaça engolir inteira ; o dono da loja grita que me mandou alguns ovos que não foram pagos ; Adonis mais uma vez vai me procurar (não queremos dizer que nessa época Venus estava atrás dele) . A ameaça era bem real . Camille teve que estar mais uma vez em frente a Corte de Justiça . Um incidente que relata com humor a Blot depois de anotar que “contas de mil francos são tão raras na praça de Paris que frequentemente passa pelo cais Bourbon sem parar !” (Radio Broadcast , 1956 em Cassar “Dossier Camille Claudel” , p.442 Papiers Bibliothèque Archives Nationales) Trad. livre da autora
Após o caso de “L`Age Mûr” ajudar Camille tornou-se mais difícil com a total separação de Rodin . Morhard permaneceu como intermediário e foi com o dinheiro de Rodin que comprou de volta o gesso “La Vague” de Henri Fontaine pelo direito de reprodução . Com a rejeição de Camille a Morhardt , já aludida anteriormente na questão Dreyfus , esse foi substituído por Joanny Peytel . Graças ao arranjo Rodin-Peytel , Camille pode alugar o escultor François Pompon para esculpir duas versões de Persée que a saúde abalada não a permitiu de esculpi-los , ela mesma como sempre fizera . Rodin depois de 1902 parou de ajuda-la após uma carta aonde escreve Camille
..... Mas não tenho mais espírito de ser desiludida pelo demônio astucioso e falso caráter (mestre de todo nós, ele diz) cujo maior prazer é se aproveitar década um” (ibid,p.451)
Entretanto no Círculo de Rodin , alguns tentaram conseguir comissões e compradores para Camille . Gustave Geoffroy , em 1904 , um amigo de longa data , admirador da obra e crítico , tentou que Camille fosse a escultora da estátua do herói e revolucionário Louis-Augusta Blanqui , da cidade de Puget-Théniers . Depois de muitas propostas a estátua foi realizada por Aristide Maillol .
Louis-Prosper Claudel , seu pai , sempre a ajudou , mesmo após perder a fortuna . Camille era totalmente dependente as família , pois suas despesas ultrapassam o ganho da venda de suas obras . Não importa o quanto devotado era Eugène Blot podia ser , jamais teria o poder de um Rodin . Camille encontrava-se num impasse para melhorar a situação financeira , ou se tornava professora ou trabalhava num ateliê que estivesse disponível , ambos virtualmente impossíveis . tanto pela saúde frágil como seu hábito recluso .
Gostaria de pontuar o fato que fez Camille voltar-se contra outras mulheres artistas . Possivelmente sua relação bastante desditosa , com a mãe e a irmã foi a causa . Seus modelos eram destituídos de poder cívico ou político , totalmente dependentes de seus pais e maridos !! Mas como informei acima as coisas estavam mudando , e algumas mulheres desfazendo-se de suas roupas restritivas pelas janelas , outras mulheres estavam desafiando os papeis tradicionais que lhe eram atribuídos .