Uma nova ideologia de feminilidade na França e Inglaterra
Uma nova ideologia de feminilidade na França e Inglaterra
Um resumo da sociedade produto do Iluminismo
Nunca antes na Europa Ocidental tantas mulheres alcançaram proeminência pública nas artes e na vida intelectual de uma restrita cultura aristocrática. Nunca a cultura esteve imersa na busca das qualidades posteriormente chamadas de “femininas” dentre elas ; artifício , sensação , prazer . Não surpreende o sucesso das mais conhecidas mulheres artistas do século final do XVII e do século XVIII como Rosalba Carriera , Elizabeth-Louise Vigée-Lebrun, Adélaide Labille-Guïard e Angelika Kauffmann estariam inextricavelmente ligadas a uma nova linha ideológica da diferença da sexualidade e representação que acompanharam a mudança da cultura cortezã e aristocrática para uma sociedade capitalista de uma classe-média próspera .
A aparição da mulhere artistas profissionais da estatura de Kaufmann na Inglaterra , e Vigée-Lebrun, Labille-Guïard e Anna Valayer-Coster na França durante a segunda metade do século XVIII é surpreendente devido a rigidez crescente da diferença na construção sexual limitando o acesso das mulheres às atividades públicas . Elas foram capazes de negociar entre o gosto de seus clientes aristocráticos e as idéias do Iluminismo sobre o lugar “natural” na ordem social burguesa , este fato merece maior atenção e estudo do que tem recebido .
Lembrando que a época “Academie Royale de Peinture et de Sculpure” fundada em 1648 sob os auspícios reais sob a direção de conhecidos academicos teóricos mais do que homens do oficio e amadores . Assumindo o controle da educação artística determinavam o estilo , estabelecendo uma hieraequia de gêneros: no topo a pintura histórica seguida pela retratística , gênero , natureza morta e paisagem determinando o prestígio de cada . A essência do discurso era a instrução do desenho vivo . Proibido às mulheres , provia o treinamento para a multifiguração das pinturas histórica e mitológica importantes para reforçar e reproduzir o poder da corte .
Nesta estrutura social hierárquica , a classe era o mais forte determinante do estatus que o gênero ; mulheres de alta classe estavam mais proximamente identificadas com os homens de sua classe do que as de classe mais baixa e a pintura enfatiza essa distinção de classes .
Existe um outro fator importante que caracteriza a época da qual estamos analizando os Salões (Salons) uma instituição social iniciada no séculoXVII . As mulheres educadas se tornaram progressivamente evidentes na vida pública da nova “intelligentsia” urbana . Foi como líderes dos Salons que algumas mulheres estavam aptas a satisfazer suas ambições públicas e se tornarem abastecedoras da cultura . São as chamada Les Femmes Savantes . 0s Salons de Julie de Lespinasse , Germaine Necker de Stael , Madame du Deffand , Madame de La Fayette , Madame du Sevigné e outras tornaram-se famosos lugares de discussões artísticas , filosóficas e intelectuais . Os Salons floreceram durante o delicado equilíbrio entre as competições de solicitações da vida pública e privada ; as famosas “salonières” do período obtiveram sucesso ao estabelecerem um local intermediário entre a esfera privada da vida da família burguesa e a esfera da côrte .
Nesse espaço social único que reunindo originalmente os homens permitia as mulheres falarem com autoridade defendendo a nova literatura , ciência e a filosofia do “Iluminnismo” . Para artista como Rosalva Carriera e mais tarde no século Vigée-Lebrun os Salons proporcionaram um contexto no qual a distinção de classes eram de certa forma relaxada e artistas , pensadores , homens de ciência pertencentes no fundo a classe média , podiam se encontrar com a classe superior de senhores ou pelo menos como iguais . Exemplificando a participação ativa dessas mulheres esclarecidas : Temos a escrita epistolar entre Madame du Deffand e Voltaire (Lettres á Voltaire Madame du Deffand 1759-1775 Éditions Payot&Rivages 1994 Préface de Chantal Thomas) No seu Salon reuniam-se homens políticos , filósofos , escritores . Ela elevou a altura de arte seu amor a conversação . Sainte Beuve afirma : “Mme du Deffand é com Voltaire , na prosa, o clássico mais puro desta época, sem excetuar nenhum dos escritores” (trad livre da autora) Considera as cartas como últimas detentoras do bom gosto como modelo de estilo, de humor e lucidez .
Marie Anne de Vichy-Chamrond, marquesa du Deffand (25 de setembro de 1696 – 23 de setembro de 1780) anfitriã francesa e mecenas das artes.
Salon de Madame du Deffand
Mme Julie de Lespinasse
As cartas de Julie de Lespinasse ao Marquês de Guibert são antes de tudo a obra de uma grande amorosa. Duzentas cartas , três anos de louca paixão e de vida mundana , o retrato de uma nova Safo , uma alma de fogo e dor, de uma mulher exemplar de destino trágico . Julie Espinasse (1732-1776) foi dama de companhia de Mme du Deffand , tinha um dos Salons mais célebres de Paris onde se encontravam d`Alambert , Condorcet , Diderot , Turgot . Suas cartas foram pubicadas pela primeira vez em 1809 . (Lettres de Julie Espinasse de Èditions La Table Ronde 1997 Presenté par Jacques Dupon)
Mme Julie Espinasse
Salon de Julie Espinasse
Madame de Sévigné
Na publicação de Rogêr Duchêne (Chère Madame de Sévigné Découvertes Gallimad Paris/Musées Litterature 1995) o autor publica cartas à sua filha a Condessa de Grignan. Madame de Sévigné tornou-se símbolo do gênero epistolar e reconhecível em todo retrato de mulher com uma pena e papel.
Nacida em 1626 em 5 de Fevereiro Marie de Rabutin-Chantal recebeu uma instrução moderna recebeu uma formação intelectual inicial cuidadosa . Aprendeu a boa leitura de romances um genero pernicioso, condenado pelos moralistas que recusam integrar a literatura pois é formada por coração e espírito ao lerem os contemporâneos da moda . Da Astrée a Clélie e depois La Princesse de Clèves , as mulheres se instruiam portanto, nos romances da filosofia , da história , da moral e da psicologia amorosa .
Viúva instalou-se em Paris em 1653 , Mme de Sévignè viveu no Marais e em 1677 comprou uma casa conveniente , antiga que atendia ao gosto da època e que atendia as suas necessidades : Hôtel Carnavalet .onde viveu até sua morte rem 1677.
Retrato de Madame de Sévigné
1626 - 17/abril /1677
Salon de Madame de Sévigné
Émilie du Châtelet
Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil, marquesa de Châtelet-Laumont foi uma autora francesa que atuou proeminentemente como cientista nos campos da física e da matemática. Em 1737 publicou o ensaio Dissertation sur la nature et la propagation du feu, baseado em suas pesquisas com a ciência do fogo, predizendo o que hoje se conhece pelo nome de radiação infravermelho e a natureza da Luz. Seu livro Institutions de Physique saiu do prelo em 1740 e foi apresentado como uma avaliação das novidades nos campos da ciência e da filosofia. Du Châtelet escreveu este livro especialmente para seu filho de treze anos mas, mesmo assim, ela não deixou de incorporar e procurou reconciliar ideias deveras complexas expostas pelos principais pensadores de sua época .
Sua tradução para o francês do ''Principia Mathematica'' de Isaac Newton, publicada postumamente em 1759, permanece como marco na história da ciência. A tradução não se limitou à conversão da linguagem; ela acrescentou comentários, notas e explicações detalhadas que tornaram o texto acessível a acadêmicos e leigos instruídos na França e em outros países europeus. Este trabalho tornou-se referência principal na Europa continental por mais de um século, consolidando du Châtelet como uma autoridade em física newtoniana
Além da tradução, ela analisou criticamente conceitos matemáticos e físicos do texto original, propondo interpretações alternativas e ampliando debates sobre energia, movimento e gravitação. Sua abordagem refletiu tanto domínio técnico quanto capacidade pedagógica, tornando o trabalho uma ponte entre a ciência do século XVII e o pensamento do Iluminismo francês. Além da tradução, ela analisou criticamente conceitos matemáticos e físicos do texto original, propondo interpretações alternativas e ampliando debates sobre energia, movimento e gravitação.
Émilie de Breteuil criança, recebeu lições de esgrima, hipismo e ginástica, tudo para melhorar a sua coordenação física. Ela recebeu uma educação excelente para a sua época e ao completar seus doze anos ela já tinha se tornado fluente em Latim, italiano, grego e alemão.
Mais tarde ela publicou suas traduções ao francês de obras clássicas da Grécia antiga. A sua família também manteve relações com o escritor Bernard le Bovier de Fontenelle. Ela foi educada em matemática, literatura e ciência. Ela também apreciava muito a dança, alcançou um nível bom como cravista, cantava em peças de ópera, e era uma atriz amadora . (haja talento)
Casou-se com o Marquês Florent-Claude du Chastellet no dia 20 de junho de 1725 e, assim, tornou-se marquesa. Aos vinte e quatro anos de idade, durante um ano e meio teve um caso amoroso com Louis François Armand du Plessis, Duque de Richelieu, que se interessava por literatura e filosofia, e Du Châtelet era uma das poucas mulheres que podia conversar com ele no mesmo nível ! Du Châtelet expressou interesse nas obras de Newton e Richelieu a encorajou a frequentar aulas de matemática avançada para entender melhor as suas teorias. Moreau de Maupertuis, um membro da academia científica, se tornou seu tutor de geometria. Ele era matemático, astrônomo e físico, e apoiava as teorias de Newton, que eram vigorosamente debatidas na academia .
Du Châtelet foi amante de Voltaire sua companheira permanente (isso sob os olhos tolerantes de seu esposo). Estudou física e matemática e publicou ensaios e fez as suas traduções. Pelas cartas de Voltaire a amigos e seus comentários um ao outro sobre seu trabalho, sem sombra de dúvida viveram juntos cultivando grande respeito e bem-querer mútuos .
Voltaire declarou, parafraseando, que Du Châtelet tinha sido "um grande homem que teve o único defeito de ter sido mulher" !!!!
Du Châtelet foi uma defensora pioneira do acesso das mulheres ao ensino científico e filosófico. Em seu ''Discours sur le bonheur'' (Discurso sobre a felicidade), argumentou que o estudo e a prática da ciência eram direitos fundamentais das mulheres para alcançar realização pessoal e intelectual. Questionava as normas sociais rígidas e reforçava a ideia de que as mulheres poderiam contribuir significativamente para o avanço do conhecimento . (quiçá uma pioneira feminista?)
Após sua morte, a obra de du Châtelet continuou a influenciar intelectuais e cientistas, tanto homens quanto mulheres. Seu trabalho foi citado em estudos de física, matemática e filosofia natural, sua vida tornou-se símbolo da luta por igualdade de gênero na ciência. Na atualidade ela é reconhecida não apenas como tradutora de Newton, mas como pensadora independente, que combinou rigor científico, criatividade e engajamento social, inspirando programas de educação científica e feminista.
Além do legado acadêmico, Émilie du Châtelet tornou-se figura de referência cultural e histórica. Sua vida e obra aparecem em biografias, estudos sobre mulheres na ciência e na filosofia, e inspiram adaptações literárias e cinematográficas que explorando a importância do conhecimento científico e o desafio às barreiras de gênero. Pesquisadores destacam que a valorização de seu trabalho contribuiu para maior reconhecimento de mulheres na ciência e na filosofia, reforçando sua posição como precursora na inclusão feminina em campos tradicionalmente masculinos .
Sem dúvida foi uma exceção e um exemplo de mulher na sua época que lutou para ser reconhecida e que ainda hoje luta !! Èmilie foi um genio !!!
Émilie du Châtelet