No início dos anos 70 as artistas feministas, críticas e historiadoras iniciam questionamentos sobre a concepção da proposta sobre o valor universal da história da arte ilustre produzida pelos homens que sistematicamente excluía a produção das mulheres desta corrente poderosa transformando a imagem da mulher em uma possessão e consumo! O resultado do reexame da vida das mulheres artistas decorreu sob debates sobre as relações entre gênero , cultura e criatividade .
Inicialmente , o feminismo nas artes decorreu fora do movimento feminista contemporâneo ; as primeiras investigações estavam profundamente calcadas na metodologia sociológica e política . As primeiras análises feministas estavam focadas no trabalho das reconhecidas mulheres artistas e na tradição singular da produção doméstica e utilitária das mulheres . Elas , também , revelaram o caminho pelo qual as mulheres e sua produção foram apresentadas sob uma relação negativa à criatividade e a aclamada alta cultura Mostraram como as oposições duais do pensamento ocidental ------ Homem\mulher ; natureza\cultura ; analítico\intuitivo ------ foram replicados na história da arte e utilizados para reforçar a diferença sexual como base para a valorização estética . Qualidades associadas ao feminino tais como , “decorativo” “precioso” “miniatura” “sentimental” “amador” etc. providenciaram um conjunto de características negativas contra aquilo que definiria a "Arte Nobre/Arte Verdadeira/Arte Ilustre ".
O desejo de recuperar as histórias das mulheres e recolocar as mulheres dentro da história da produção cultural , levou a um importante foco sobre a criatividade feminina . Também , dirigiu a atenção as categorias – arte e artista – sobre as quais a disciplina de história da arte estruturou seu conhecimento . Dando origem na descrição e classificação de objetos , e a identificação de uma classe individual conhecida como artistas , a história da arte tem enfatizado estilo , atribuição , datação , autenticidade , e a descoberta de artistas esquecidos . Reverenciando o artista individual como protagonista mantém a concepção da arte como expressão individual ou como reflexão de realidade social pré-existente , frequentemente bastante afastada da história e das condições de produção e circulação .
No texto Mulheres e Raparigas (O pintor da vida moderna) Baudelaire (1821-1867) numa viagem imaginária a imensa galeria da vida parisiense de sua época , os parques , teatros , cafés, e mesmo bordéis , espaços esses , que eram reconhecidos como da modernidade, entende que eram sobretudo espaços de uma masculinidade de classe ou seja da burguesia masculina. As mulheres burguesas frequentavam esses espaços públicos . Ainda segundo o escritor , entretanto , havia uma linha divisória entre os sexos que não se situava na fronteira dos espaços públicos e domésticos. Tratava-se de uma fronteira no interior das definições burguesas das mulheres. Segundo Baudelaire , estabelecia uma divisão governada pelos diferentes usos e exploração do corpo feminino pelo homem burguês. Seja como mulher casada , possessão absoluta , legal , no enquadramento da compra do corpo e seus frutos pelo nome de casamento , seja como rapariga cujo corpo o burguês emprega nas fábricas , lavanderias , nos cafés ou nas casas de prostituição . As mulheres que trabalham fora da família estão expostas aos homens , se encontram , tanto despojadas de sua feminilidade como por se tornarem tão somente “sexualizadas” . São objetos de usos repetidos , governados pelo dinheiro . No domínio público , em contato com o dinheiro e as trocas comerciais com os homens , as trabalhadoras quase perdem seu pertencimento a categoria de mulher . Entretanto , são inscritas na cultura moderna como verdadeiras figuras a modernidade . Basta lembrar o número de quadros existentes no ao final do século XIX que tem como tema a mulher amante ou prostituta. Para o escritor é sintomático que espaços da modernidade sejam considerados como espaços de uma sexualidade , criadoras de uma modernidade , por certo , mas marginal e fundamentada sobre as relações recíprocas de poder entre sexos e classe.
Berthe Morissot, mulher burguesa, pintora pertencente à sociedade acima descrita, seria possível imagina-la como pintora da tela pintada por Manet , Olympia? Se examinarmos , e futuramente vamos faze-lo , os espaços representados nas imagens , serão cenas de jardim , de salões , de quartos de dormir , os quais designam os lugares privilegiados e apropriados da vida das mulheres burguesas.
Mudanças de conceitos arraigados em qualquer área são difíceis de serem aceitos por qualquer sociedade. Mudanças são lentas e de custosa aceitação . Vejam a aceitação do voto feminino, a aceitação de mulheres em determinadas profissões consideradas de ordem masculina , ou sua ascensão a determinados cargos independente de sua competência! Na História da Arte não será diferente , ainda há um longo caminho a frente.