Venus Adormecida, Giorgione 1510 com a morte de Giorgione Ticiano terminou a tela.
A Vênus Adormecida c. 1510. Óleo sobre tela; 108,5 x 175 Gemaldegalerie Alter Master Dresden Alemanha.
Observem a figura acima a personagem, pela tridimensionalidade do espaço, encontra-se em destaque no primeiro plano, concordam? A inclinação da cabeça apoiada sobre o braço, o olhos fechados, a serenidade da figura, aliada à luminosidade difusa estabelece uma integração entre esta e o fundo, que são elementos que evidenciam o não conhecimento de onde e quando ocorre a cena . Pode ser manhã, tarde , a própria paisagem de fundo apenas indica que a cena ocorre ao ar livre, na natureza ! Portanto, não tem localização temporal nem espacial. Repararam ? Logo, a personagem adormecida se transforma em elemento de contemplação e beleza pela distância absoluta instaurada entre a personagem , o nu enquanto corporificação de ideia de beleza e o espectador enquanto mero observador O fato de a figura nua estar reclinada sobre um panejamento branco e vermelho , envolvida numa luminosidade difusa , e com a mão sobre o sexo, acentua a sensualidade da personagem. É o poder erótico da imagem do nu acentuado pelo erotismo velado. Perceberam o desenvolver do pensamento observando a reprodução da tela como espectadores ?
Como estabelecer uma equivalência entre o discurso figurativo visto acima e o titulo que o referencia? Venus como foi explicitado anteriormente remete anaforicamente a deusa representativa da beleza e a que preside o desejo amoroso na Mitologia Grega. Ao chamarmos de Venus Adormecida a personagem da tela instaurou uma retórica visual . A figura feminina nua passa a encarnar o conceito de beleza , objeto de contemplação , reiterando o título. Mais ainda , passa a personificar a “Venus Celeste” que preside Amor puro , belo porque pertence ao intelecto , porque a entrega total , de autodoação , evidenciado pelo próprio abandono da figura no sono ----- este Amor é atemporal e eterno ------ a própria cena o atesta já que não há como perceber nem localização temporal nem espacial , explicitado acima . Esta figura seria sem dúvida a que Renoir chamou de Venus , a beleza eterna personificada pela deusa-clássica --- a glorificação do Amor enquanto ideia --- através da figura feminina nua , sempre objeto o desejo amoroso , sensual e erótico.
Acredito que provavelmente não teria havido outra intenção de Giorgione , que a fantasia , expressa através do cromatismo e luminosidade de uma sensualidade deliberada. Fantasia essa que pode muito bem se transformar na fantasia do espectador ! Não seria essa a magia da arte?
Continuemos com a nossa análise comparativa.
A Venus de Urbino 1543 Oleo sobre tela , 1.19 x 1.65 Galeria Degli Uffizi Florença Italia
Venus de Urbino Ticciano 1538 Alta Renascença Italiana
Observando a tela, a personagem também se apresenta m primeiro plano determinado pela tridimensionalidade espacial enfatizado pela meia parede, escura . A composição espacial do segundo plano nos permite perceber através das paredes, do chão e das janelas que se abrem para o exterior que se trata de um espaço interior E mais, pelos detalhes da composição como os tecidos brocados das paredes e do divã sobre o qual se espalham almofadas e a cobertura de cetim nas quais se reclina a personagem, a pavimentação luxuosa do chão, o veludo da cortina, indicam que além de ser um espaço interior pertence a um cômodo faustoso. As aias que ao fundo do aposento , uma ajoelhada que remexe nos baús e a outra em pé segurando um vestido apontam para a possibilidade de uma cena do cotidiano . Diferente da tela anterior pintada por Giorgione temos um espaço e uma temporalidade bem definidas.
A figura feminina nua guarda semelhança com a anterior , mas por se encontrar menos reclinada , acordada , segurando um ramalhete de flores e fitando o espectador estabelecendo uma relação entre a personagem e o espectador , transmitindo a ideia de ação , fato que absolutamente não ocorreu na tela de Giorgione .
Percebemos que essa personagem encontra-se enfeitada com pulseira , brincos e anel sugerindo que além da ideia de ação existe uma insinuação de que esta figura é de uma mulher da sociedade da época , retratada em seus aposentos , em companhia de seu animal de estimação e servida por suas criadas . Por essas observações parece haver a existência de uma metáfora .Uma mulher cuja imagem nos diz verdadeira é chamada de Venus e identificada pela palavra Urbino. Documentos históricos reforçam a hipótese de que a personagem metaforicamente representada sob o título de Vênus , seria em realidade uma cortesã veneziana , tendo o quadro uma comanda à Ticiano Vecellio do Duque de Urbino , Guidobaldo Della Rovere em 1538 . Podemos deduzir , portanto , que a tela se destinaria ao prazer da contemplação de uma figura feminina nua , a cortesã , provavelmente objeto do desejo amoroso do Duque. Chama atenção o animal de estimação , um pequeno cachorro ,aos pés da figura feminina que poderia simbolicamente representar a fidelidade da cortesã ao seu amante . Indubitavelmente , o pintor soube dar forma às aspirações do mecenas , tendo sido uma espécie de agente de publicidade da sociedade hedonista de sua época .
Impregnado pelo espírito do Renascimento no qual a beleza física é fundamental, Ticiano não a vê não como beleza isolada ou abstrata como o fez Giorgione , mas viva respirando a atmosfera a sua volta . Seus nus não representam uma fantasia , mas uma visão objetiva , sem prejulgar , apreendendo apenas um retrato de um momento de uma vida . Portanto , podemos concluir que nesta obra Venus significa a metáfora da representação e uma mulher real , pertencente a sociedade da época , enquanto que na obra de Giorgione , Venus significa um conceito de beleza , representa um culto à beleza do corpo humano feminino .
Recordando Renoir “o nu feminino tanto nasce do mar quanto da cama : é chamada Venus ou Nini . Nada mais pode ser imaginado ou concebido” . Pela análise feita da tela podemos afirmar que essa seria a Nini pois trata-se de uma mulher real provável amante do Duque. Fascinante não é mesmo ?
Em ambas as telas a mitologia serviu como álibi para a representação do nu , a figura mitológica seria uma convenção cultural , sem dúvida , o nu feminino desde de que apresentado sob a capa o título mitológico , atenderia às convenções morais e sociais vigentes .
Olympia 1863 1.30 x 1.90 óleo sobre tela Musée D`Orsay Paris. Apresentada no Salon de Paris em 1865
Observem que nesta obra de Edouard Manet , também a figura encontra-se em primeiro plano. Não há tridimensionalidade espacial . A diferença de planos é estabelecida segundo as diferenças de claro e escuro . Como na figura anterior o primeiro plano é determinado pela meia parede . Observem que , o fundo neutro provoca uma indeterminação do local da cena , e é pelo contraste do fundo escuro e a figura clara , precisamente delineada, que se encontra em evidencia . A posição da figura é semelhante a da Venus de Urbino , entretanto , essa encontra-se quase sentada ; a cabeça levantada olhando fixamente e desafiadora o espectador , almejando estabelecer uma relação coloquial . O contraste estabelecido entre a linha do ombro e braço contra a textura da seda das almofadas o contraste da linha de seu corpo com a manta de seda sobre a qual se recosta , a mão escondendo o pelo púbico , a posição da perna cruzada de forma a evidenciar o pé calçado , o fato de se apresentar com uma flor vermelha sobre o cabelo ruivo , um laço de veludo preto ao pescoço , pulseira , brincos , e chinelos de salto , acessórios , que reforçam sua nudez e a identificam como um tipo de mulher da época , são elementos que não só patenteiam como reiteram a sensualidade da figura !
A criada negra que lhe traz um buquê de flores , o gato preto que se encontra aos pés da personagem , tal como aconteceu com as aias e o cachorro da personagem anterior ajudam a melhor compreensão de que a figura é uma mulher real e não uma metáfora . Portanto , o titulo reafirma o que a imagem diz , dando-lhe um nome próprio ou quem sabe um nome de guerra , pois Olímpia era um nome que genericamente definia as prostitutas de Paris, (les demi-mondaine) um escândalo ! Houve de fato uma intenção de sensualidade direta que chocou o público . Esta é sem sombra de dúvida a “nini de Renoir” --- a fascinação do real feminino retratado na resposta do pintor ao corpo de seu modelo ou amante .
O quadro de Manet buscou inspiração na Venus de Urbino de Ticiano , entretanto , Manet modernizou a tela de Ticiano ao aproveitar quase os mesmos elementos sob uma nova gramática pictórica . Vejamos : ao recortar a figura do fundo , enfeita-la sob certa forma convencional , ao definir um olhar direto , imperturbável , de desafio ou convite , o pintor de forma intencional , retrata uma prostituta , típica de Paris da Belle Èpoque facilmente reconhecível , e para culminar o gesto , lhe forneceu um nome ! Tanto mais intencional quando se documenta que o modelo era Victorine Meurent , que em alguns textos aparece como tendo 16 anos e em outros cerca de 30 anos , cujo corpo gracioso , mulher nos seios e quase garota nos quadris , prestava-se ao equívoco da infância ultrajada . A jovem era o modelo predileto de Edouard Manet.
O pintor não se utiliza de qualquer metáfora , apresenta uma mulher nua identificada não só através do título , como dos atributos utilizados pela personagem e pela atmosfera que a cerca . Olhem a tela com cuidado , o erotismo de Olímpia está reafirmado nos adereços luxuosos carregados de simbologia : a orquídea vermelha em seus cabelos ruivos possui poderes afrodisíacos ; as pérolas são atributo de Venus , símbolo essencial da feminilidade , a pequena sandália de salto é símbolo de identidade pessoal no caso da prostituta e pode ser interpretado como símbolo sexual ou ao menos do desejo sexual escondido no pé , que segundo interpretações freudianas e jungianas teriam significação fálica . Já não foi moda no século XIX , relatada por alguns romancistas tomar champanhe tendo como taça o calçado feminino ?
O ambiente conduz a uma leitura onde a sensualidade é fator preponderante . O xale de seda jogado sobre o divã , e sobre o qual repousa o corpo nu prefigura um contato sensual entre o corpo e a textura macia da seda . As flores que a ama traz sob a forma de um buquê , podemos interpretar como oferecido por um admirador da jovem que tenta conseguir sua atenção ou já a obteve . O gato preto no meu entender , baudelairiano, com o corpo sinuoso , pelo macio , andar sorrateiro , simbolizaria a afetividade , a inconstância , ou seria símbolo da sensualidade feminina ? Abaixo o poema de Charles Baudelaire
O Gato
Dentro em meu cérebro vai e vem
Como se sua casa fosse
Um belo gato, forte doce .
Lhe ouça o fugaz timbre discreto;
Seja serena ou iracunda,
Soa-lhe a voz rica e profunda
Eis seu encanto mais secreto.
Lhe ouça o fugaz timbre discreto;
Seja serena ou iracunda,
soa-lhe a voz rica e profunda
Eis seu encanto mais secreto
Essa voz, que se infiltra e afina
Em um recesso mais umbroso
Me enche qual verso numeroso
E como filtro me ilumina
Os piores males ela embala
E os êxtase todos oferta;
Para enunciar a frase certa
Não é com palavras que fala.
Não existe arco que morda
Meu coração, nobre instrumento,
Ou faça com tal sentimento
Vibrar-lhe a mais sensível corda
Que a tua voz ó misterioso
Gato de místico veludo,
Em que como um anjo, tudo
È tão sutil quanto gracioso!
2
De seu pelo louro e tostado
Um perfume tão doce flui
Que uma noite ao mima-lo, fui
Por seu aroma embalsamado
É a alma familiar da morada;
Ele julga, inspira, demarca
Tudo que seu império abarca;
Será um deus, será uma fada?
Se neste gato que me é caro,
Como por imãs atraídos,
Os olhos ponho comovidos
E alí comigo me deparo,
Vejo aturdido a luz que lhe arde
Nas pálidas pupilas ralas,
Claros faróis, vivas opalas,
Que me contemplam sem alarde.
(tradução da autora)